CASO DE CONSCIÊNCIA - Humberto de Campos

Jefferson Severino - 25/06/2019 SC 01571 JP

CASO DE CONSCIÊNCIA
Humberto de Campos

 
Declara-se você, meu amigo, extremamente fatigado na luta pela vitória do bem e acrescenta em sua carta: “Que fazer, irmão X? Não aguento mais injúrias, incompreensões, sarcasmos, críticas... Só penso em retiro, sossego, e, à noite, quando consigo dormir, se sonho, a única coisa de que não me recordo é de uma rede de embalo, que passou a viver em minha memória, incessantemente.”
 
De fato, meu amigo, cansaço é sofrimento e dos maiores; no entanto, já que você nos pede opinião, rogo licença para narrar-lhe ocorrência ligeira no domínio das sombras.
 
Denodado legionário de obra salvacionista contou-nos que em tenebroso recanto da Espiritualidade Inferior, quase que numa cópia perfeita de antiga parábola, atribuída a Lutero, reuniu-se graduado empreiteiro do mal com diversos cooperadores.
 
Propunha-se a ouvi-los sobre alguma idéia nova, quanto a vampirizar os amigos encarnados na Terra.
 
Encontro de quadrilheiros, como acontece, aliás, em muitos lugares do plano físico.
 
Exposto o objetivo da assembléia pelo diretor da crueldade organizada, anotou um dos assessores:
 
- No mês passado, açulei um cão hidrófobo contra dois seareiros do bem, que estudavam o Evangelho, e consegui que a morte os pusesse fora de ação...
 
- Trabalho inútil - enunciou o sombrio dirigente -, ambos, a estas horas, estarão, em espírito, apoiando obras de maior importância, na Terra mesmo. Terão saído da desencarnação com amparo dos Céus.
 
- Eu - confidenciou o segundo - entreteci uma rede de intrigas contra uma senhora, dedicada a Jesus, e tão eficientemente me conduzi, que o marido já a abandonou, arrancando-lhe os filhos...
 
- Esforço improdutivo - zombou o chefe. - Você nada mais fêz que endeusar determinada mulher... Ela acabará vencendo pela abnegação...
 
- No meu setor - proclamou estranho assalariado da delinquência -, provoquei o ódio gratuito de um louco sobre um seguidor fiel do Cristo, que foi morto, na semana passada, por espessa carga de balas.
 
- De nada valeu - comunicou o mentor. - A vítima foi guindada à condição de mártir e, fora do corpo terrestre, se dedicará mais intensamente em favor da Humanidade...
 
- Quanto a mim - expressou-se outro cooperador -, logrei confundir todo um agrupamento de aprendizes da Boa Nova e, agora, cinco dos melhores elementos jazem afastados pela imposição da calúnia, urdida com segurança...
 
- Empreendimento frustrado - revidou o comandante -, os injuriados saberão aproveitar a oportunidade, a fim de trabalharem com Jesus, através do exemplo...
 
Silenciou a pequena junta, algo desencantada, quando um dos auxiliares acentuou com sorriso irônico:
 
- Chefe, parece mentira o que vou contar, mas, desde muito tempo, percebi que perseguição só serve para promover os perseguidos. Imaginei, assim, que o melhor meio de anular os colaboradores de Jesus é exagerar-lhes as pequeninas depressões e pô-los a dormir.
 
Em seis meses, já coloquei oitenta servidores do Evangelho, fora de ação, em casas de repouso, leitos, redes e acolchoados...
 
A receita não falha. A pessoa experimenta ligeiro abatimento e entro em cena com as nossas velhas hipnoses. O resultado é tiro e queda. Sono que não acaba mais.
 
Desse modo, os melhores dessa gente do Cristo não mais trabalham, nem na Terra, nem nos Céus...
 
O maioral aplaudiu, freneticamente, o comunicado e dispensou a presença de todos os demais participantes do grupo, a fim de se entender mais profundamente com o sagaz companheiro.
 
Como é fácil de anotar, meu amigo, depressão é um problema.
 
Para rematar, digo a você que, há tempos, eu mesmo, pobre cronista desencarnado há bons trinta e cinco anos, também me senti, certa feita, sob enorme abatimento.
 
Procurei, para logo, um orientador amigo, solicitando conselho. Ele me ouviu carinhosamente, bateu de leve nos meus ombros, e observou, afinal:
 
- Meu caro, se você sofre algum desgaste nas próprias forças, procure melhorar-se, refazer-se. Guarde, porém, muito cuidado com semelhante assunto.
 
A fadiga existe mesmo, entretanto, é sempre um caso de consciência, porquanto, ao que saibamos, ninguém, até hoje, conseguiu verificar realmente onde termina o cansaço e começa a preguiça.
 
Humberto de Campos
Psicografia de Francisco Cândido Xavier
Livro: Relatos da Vida
 
 




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